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Violências Silenciosas: Como Identificar e Romper com Ciclos de Abuso

  • Foto do escritor: Carla Moreira
    Carla Moreira
  • 21 de abr. de 2025
  • 2 min de leitura


Nem toda violência se faz com gritos ou marcas no corpo. Algumas operam no silêncio, nos gestos sutis, nas palavras que diminuem e nas relações que aprisionam sem algemas visíveis. Essas são as violências silenciosas — formas de abuso que passam despercebidas, muitas vezes normalizadas, mas que têm impacto profundo na vida psíquica de quem as sofre.

É comum pensar em violência apenas como agressão física. Mas existem outras formas de abuso que ferem de maneira igualmente devastadora: a violência emocional, a psicológica, a relacional, a simbólica. Elas aparecem em vínculos afetivos marcados por manipulação, chantagem, críticas constantes, desvalorização, controle disfarçado de cuidado, distorção da realidade e silêncios que pesam mais do que palavras.

Essas violências se expressam em diferentes contextos — casamentos, amizades, famílias, ambientes de trabalho — e são especialmente difíceis de identificar porque muitas vezes se disfarçam de amor, proteção ou “preocupação”. A vítima, inserida nesse laço afetivo ambivalente, pode se sentir confusa, culpada ou até responsável pela dor que está sentindo. Afinal, o mesmo sujeito que a machuca é aquele que também oferece afeto, companhia e momentos de carinho. Essa mistura torna ainda mais difícil reconhecer que há um abuso em curso.

A psicanálise entende que essas situações não acontecem por acaso ou escolha racional. Muitas vezes, o sujeito envolvido em relações abusivas está repetindo inconscientemente padrões emocionais antigos, muitas vezes enraizados em vivências da infância. Relações com figuras parentais que foram negligentes, invasivas ou contraditórias deixam marcas psíquicas que, sem que se perceba, moldam a forma como se ama e se é amado. Assim, o sujeito pode acabar preso a relações onde se repete o mesmo roteiro de sofrimento, mesmo sem querer.

É nesse ponto que a psicanálise pode oferecer um caminho de escuta e elaboração. Ao iniciar um processo analítico, a pessoa encontra um espaço em que pode, com tempo e cuidado, nomear aquilo que vive. E o que se nomeia pode, finalmente, ser transformado. A análise permite revisitar as histórias que sustentam essas repetições, compreender as dinâmicas afetivas que nos prendem e, pouco a pouco, construir novas formas de se relacionar consigo e com os outros.

Romper com um ciclo de abuso raramente é um ato isolado. É um processo. Muitas vezes longo, doloroso, mas profundamente libertador. Não se trata apenas de sair de uma relação, mas de sair de um modo de estar no mundo que foi construído sobre silenciamentos, medos e perdas. A psicanálise aposta na retomada do desejo, na reconstrução da autonomia e na criação de um espaço interno mais livre e habitável.

Toda violência silenciosa carrega uma história que precisa ser ouvida. E o primeiro passo para romper com esse ciclo é reconhecer que o que se vive não é normal, não é amor, e não precisa continuar sendo assim. O silêncio da dor não é natural — é aprendido. Mas também pode ser desaprendido.

Se você sente que está vivendo algo parecido, ou se conhece alguém nessa situação, saiba que há caminhos possíveis. Falar é o início. E a escuta analítica pode ser uma potente aliada nesse processo de reencontro com sua própria verdade, seu desejo e sua liberdade.



 
 
 

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© 2024 por Carla Moreira, Psicanalista

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