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Menopausa: Quando o Espelho Muda e a Alma Pede para Ser Escutada

  • carlasamoreira
  • 14 de mai.
  • 3 min de leitura

A menopausa costuma ser vista e comentada apenas como uma fase hormonal. O corpo muda, o ciclo menstrual termina, surgem sintomas e incômodos físicos e emocionais. Mas, para a psicanálise, a menopausa vai muito além do corpo biológico. Ela também se relaciona com a identidade, o desejo, a feminilidade, o modo como a mulher se vê e como acredita ser vista pelo outro.

Muitas mulheres chegam a essa fase sentindo que algo dentro delas saiu do lugar. Algumas relatam uma estranha sensação de perda, como se uma versão antiga de si mesma estivesse desaparecendo. Outras descrevem um vazio difícil de nomear. Há quem se olhe no espelho e não reconheça mais a mulher que costumava ser.

E a psicanálise escuta exatamente isso: não apenas os sintomas, mas a história subjetiva que existe por trás deles.

Para Freud, o sofrimento humano não nasce apenas da realidade concreta, mas também das perdas simbólicas que vivenciamos ao longo da vida. A menopausa pode despertar um luto profundo, não somente pelo corpo jovem que muda, mas pelas imagens, papéis e referências que sustentavam aquela mulher até então.

Freud falava que desde cedo, aprendemos quem somos através dos olhares que recebemos: os elogios, os desejos despertados no outro, os lugares que ocupamos dentro da família, dos relacionamentos e da sociedade. Muitas mulheres foram ensinadas, ainda que silenciosamente, a associar seu valor à juventude, à beleza, à maternidade ou à capacidade de agradar.

Quando a menopausa chega, essas referências podem estremecer.

É como se algumas mulheres se perguntassem, mesmo sem palavras:“Quem sou eu agora?”

Jacques Lacan aprofundou essa questão ao dizer que construímos nosso “eu” a partir do olhar do outro. Desde muito cedo, precisamos ser reconhecidos, nomeados e desejados para formar nossa identidade. O problema é que, quando o olhar do outro muda ou quando a mulher sente que mudou, sua própria imagem interna também pode vacilar.

Na menopausa, isso aparece de forma intensa. Algumas mulheres sentem que deixaram de ocupar o mesmo lugar simbólico que ocupavam antes. O corpo muda, o desejo muda, a forma como elas acreditam ser percebidas muda. E junto disso surge a angústia: não saber exatamente quem se é quando antigas referências deixam de sustentar a identidade.

Mas a psicanálise não vê essa fase apenas como perda. Ela também pode ser uma travessia.

Para Freud o sofrimento pode se transformar quando a energia psíquica, aquilo que ele chamava de investimento libidinal, encontra novos destinos. Muitas mulheres conseguem atravessar essa fase quando deixam de investir toda sua vitalidade apenas na própria imagem e passam a direcioná-la para outras áreas da vida, como a criatividade, o conhecimento, a arte, a espiritualidade, os vínculos mais verdadeiros, os projetos pessoais e o reencontro consigo mesmas.

Não significa abandonar a feminilidade. Significa ampliá-la.

A mulher deixa de existir apenas para corresponder ao olhar externo e começa, pouco a pouco, a perguntar o que realmente deseja para si.

Carl Jung via certas fases da vida como verdadeiras iniciações da alma. Para ele, existe um momento em que a pessoa é convidada a abandonar personagens antigos para encontrar algo mais autêntico dentro de si. Ele chamava esse caminho de processo de individuação.

Na linguagem simbólica de Jung, a menopausa pode ser vista como a travessia da mulher que deixa de viver apenas identificada com papéis externos e começa a descer às profundezas de si mesma. É como a passagem do verão para o outono da alma: as folhas caem, aquilo que já não sustenta se desprende, e a mulher é convidada a encontrar valor não apenas na aparência, mas na própria essência.

Muitas vezes, essa travessia assusta porque exige deixar morrer certas versões de si. Jung dizia que toda transformação profunda carrega algo de morte simbólica. Mas também dizia que, depois da descida ao inconsciente, existe a possibilidade de renascimento.

A menopausa, então, pode ser entendida como um portal. Não apenas o fim de um ciclo biológico, mas o início de uma nova relação da mulher consigo mesma.

A psicanálise não oferece respostas prontas para essa fase. Ela oferece escuta. Um espaço onde a mulher pode falar de suas perdas, seus medos, sua raiva, seu vazio, sua sexualidade, sua identidade e suas perguntas mais íntimas sem ser reduzida a hormônios ou sintomas.

Porque, muitas vezes, aquilo que dói não é apenas o corpo que muda.É a difícil reconstrução de quem se é quando antigas imagens deixam de sustentar a própria existência.

E talvez exista algo profundamente humano nisso: descobrir que, por trás das perdas, também pode existir uma nova forma de nascer.

Carla Moreira - Psicanalista @terapia.psicanalise.online


 
 
 

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© 2024 por Carla Moreira, Psicanalista

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