Entre Flores e Sombras: a travessia da menopausa no mito de Perséfone
- carlasamoreira
- 4 de mai.
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A menopausa, sob o olhar da psicanálise, pode ser compreendida como uma travessia simbólica, um momento em que algo do corpo se transforma, mas, sobretudo, em que o sujeito é convocado a se reposicionar diante de si, do tempo e do desejo. Não se trata apenas do fim de um ciclo biológico, mas da emergência de questões profundas: o que permanece quando a função reprodutiva se retira? O que se reinventa quando certas identificações caem?
Na perspectiva de Carl Gustav Jung, essa fase pode ser entendida como parte do processo de individuação, um movimento de retorno a si mesma, no qual a mulher é convidada a integrar aspectos de sua psique que, muitas vezes, foram silenciados ao longo da vida. Já para Jacques Lacan, o corpo nunca é apenas biológico: ele é atravessado pela linguagem e pelo desejo. Assim, a menopausa também pode reativar questões ligadas à feminilidade, ao lugar no Outro e à relação com a falta.
É nesse ponto que o mito de Perséfone oferece uma potente metáfora. Filha de Deméter, deusa da fertilidade, Perséfone é raptada por Hades e levada ao mundo subterrâneo. Sua mãe, em luto, faz a terra secar, interrompendo o ciclo da vida. Após negociações, Perséfone passa a dividir seu tempo entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos, instaurando, assim, o ciclo das estações.
Se pensarmos simbolicamente, a menopausa pode ser comparada a essa descida ao submundo. Há um afastamento do lugar tradicionalmente associado à fertilidade, o campo de Deméter, e uma aproximação com um território mais interno, mais silencioso, mais profundo. É um tempo em que antigas referências podem parecer perder o sentido, como a terra que deixa de florescer. Mas também é um momento de encontro com outras formas de potência.
Perséfone não retorna do submundo como a mesma. Ela se torna rainha daquele espaço. Há, nesse mito, a possibilidade de pensar a menopausa não como perda, mas como transformação de lugar. A mulher que atravessa esse período pode se deparar com um novo tipo de saber, menos ligado à produção e mais à escuta, à introspecção, ao inconsciente.
A psicanálise não oferece respostas prontas para essa travessia, mas sustenta a importância de escutar o que emerge nesse tempo: angústias, lutos, redescobertas. Cada mulher viverá sua “descida” de forma singular. E talvez a questão não seja evitar o submundo, mas, como Perséfone, encontrar nele uma forma própria de existir e, quem sabe, de reemergir com novos sentidos para a vida.
Carla Moreira - Psicanalista
@terapia.psicanalise.online (81) 99826.7115



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